A ILUSÃO DA ORDEM
Claudio Berenguel Ribeiro
Está instalado o Medo, medo disso, medo daquilo, o medo é um poderoso instrumento de dominação, só isso, de mais não serve para nada, acho mesmo que o medo é o câncer do espírito, ainda guardo ensinamento aprendido , seja duro, justo e o medo não pode ser conselheiro dos seus atos...
Qual será a razão para que o medo seja sistematicamente tão disseminado, promovendo de forma contínua seus malévolos efeitos, quais as verdadeiras intenções daqueles que alimentam nossa desgraça como povo, e impedem qualquer ideal libertário real?
A falta da segurança e das garantias individuais, nunca esteve tão escandalosamente implantada como nos dias de hoje, começo de um século, de um período marcado por grandes avanços tecnológicos, conquistas e também grandes destruições.
Hoje literalmente aterrorizado, o povo vive o pânico da absoluta ausência da Autoridade, aqueles que pela sorte ainda têm casas, nelas se enclausuram, com altos muros, cacos de vidro, arame farpado, os mais abastados passeiam com seus reluzentes automóveis blindados como se estivéssemos em guerra, e estamos!
Como a segurança passou a ser objeto de publicidade e propaganda, vendem e anunciam segurança como produto de armazém. Sistemas, blindagens, serviços que no Estado organizado são absolutamente inúteis. Este é sem dúvida mais um dos evidentes sinais da total insegurança instalada. Além, claro, dos grotescos números das estatísticas, quase sempre preparadas, mascaradas, como evidência da brutalidade e da violência praticada contra a Nação. Em tudo lembra os tempos bárbaros, a não ser os métodos, mais refinados, com o perfume de tecnologia.
As ideologias, que pelo seu conjunto, pouco infundem na consciência da Nação, sempre estiveram demasiado ocupadas no objetivo do poder, como meta final, desprezando a tutela do espírito da Nação. Uma vez instalados no poder, ocupam-se da administração das necessidades próprias, permitindo a manutenção dos instrumentos de dominação da Nação.
Após o desgaste do exercício, exaure a motivação que o conduziu ao poder, operando-se então trilhar uma descendente que implicará em sua substituição. Ou a preservação da política de dominação da Nação ocupada, como ilusão oferecida. Qualquer forma de governo acaba por trilhar a mesma sina, a de servir para iludir, fazendo todos acreditarem da instalação da Ordem, qualquer que seja o regime, desde as ditaduras militares, que se banquetearam com os sonhos da Nação, seja pelas democracias arranjadas em gabinetes, e não se pode esquecer que são séculos de descaso e abusos.
Verdade é que a disseminação da Ilusão da Ordem conseguiu produzir tanta insegurança e desrespeito às garantias individuais, retirando da Nação a ferramenta da eleição e do voto. Com isto gera um mecanismo de ilusão da Ordem, fazendo acreditar na democracia, que pouco importa para satisfação nacional.
Nem pensar que possa defender qualquer ditadura. Tenho por esse sistema de exercício de tirania a mais profunda ojeriza. Mas a tão sonhada democracia, em especial por minha geração, não trouxe alívio ao sofrimento da segurança. Muito menos nas garantias individuais. Todavia, fez parte de uma trama vil, objetivando a dominação da Nação, continuada de forma requintada e cruel, instalada a Ilusão da Ordem. Tanto faz a forma de governo que a enfeita.
A Ilusão da Ordem, é um poderoso anestésico que age no homem, inibe sua principal virtude que é o da criação. Acomodado por tal ilusão deixa de empreender, e permite a dominação, deixa-se levar pelo suposto conforto de um ordenamento social, que em nada o satisfaz, dessa forma torna-se mais uma indefesa vítima da desordem.
A administração de grandes territórios sempre foi tarefa difícil, creio que os romanos tiveram admirável sucesso nessa difícil empreita, de Julio Cesar até Nero, a história relata uma eficiente administração destacando-se claro o período de Augustus não se esquecendo para não se faltar com a justiça do labor e da inteligência de Lívia sua esposa, como se fosse sua consciência.
Com Nero e sua inabilidade veio a temida guerra civil, a divisão do poder, a sua condução por homens menos capazes, e por fim, a ruína do Império Romano, finalizando uma era histórica relevante pela herança cultural, militar, das artes, da engenharia, da administração pública, do trato das finanças, do Direito, e do ordenamento do Estado. Obrigando a adoção de novos e revolucionários métodos de dominação. Talvez aí tenha nascido o novo desenho do Império Romano, uma verdadeira obra prima da inteligência e da manipulação da informação.
Para poder avançar no entendimento que faço da grave situação atual, das suas causas e assim tatear por um caminho onde se possa administrar nossas aspirações, em direção à efetiva compreensão das possibilidades, será preciso discorrer ainda que de maneira superficial, sobre o que considero, o grande e nefasto vetor da violência social: a Ilusão da Ordem, e o conflito entre o Estado e a Nação.
Claro, enquanto se imagina as coisas em ordem não se busca arrumá-las.
Utilizando-se de todos meios disponíveis, o Estado não mede esforços para asfixiar a Nação, fazendo-a acreditar na ordem, que todavia sentimos, sabemos que não existe, mas apenas se projeta por conta da violência praticada pelo Estado, nos dias atuais está o Estado em verdadeira luta de sobrevivência, desesperada, gastando suas energias em aparentar uma situação irreal, cujo único beneficiário é o próprio Estado e seus parasitas, ocupado apenas na manutenção de privilégios que em tudo destoam das mazelas da Nação, bem disse Nitzche : “vêm ao mundo homens demais, para os dispensáveis inventou-se o Estado”.
A estratégia da violência, se desenvolve com o aprimoramento da intervenção física, e da manipulação da opinião. Fatores que aqui no Brasil, são somados à dificuldade inerente da administração de um país com tal extensão territorial, acrescente outra parcela devida a prática enraizada e corriqueira dos nossos governantes da maneira venal de sobrepor interesses pessoais aos coletivos, aqui ente nós consagrada como corrupção, a manutenção a qualquer preço dos privilégios e pronto, aí temos a fragilização das garantias individuais, a insegurança instalada, o cidadão oprimido.
A ilusão da Ordem
A ilusão, é como um mundo virtual, onde se criam as bases fantasiosas de fatos e suas interpretações, norteadas pela comodidade de valores traçados em sintonia com objetivos estranhos a realidade.
Das tiranias praticadas contra um povo, podemos de pronto distinguir duas, a primeira real, que consiste na violência do governo, traduzida pelos atos que ferem e ultrapassam os limites da individualidade, na sua capacidade física, outra, é a de opinião, que se percebe quando aqueles que governam estabelecem coisas que ferem o modo de pensar de uma nação, mas de forma requintada por processos de indução, a comunicação festejada por seus eficientes meios de alcance, tornou-se principal corpo de guerra a submeter a vontade e o discernimento do povo.
Conta-se que os primeiros romanos não queriam rei, por não suportar seu poder e seus modos; pois que César, e seus triúnviros, Augustus, ainda que fossem reis, mantiveram sempre a aparência da igualdade, e sua vida privada sugeria uma espécie de oposição ao fausto dos reis da época. Augustus teria indignado o povo romano por conta de certas leis demasiado duras que ele havia criado, mas assim que mandou voltar o comediante Pílades, que facções haviam expulsado da cidade o descontentamento parou. Tal povo sentia mais vivamente a tirania quando se expulsava um saltimbanco do que quando se suprimiam todas as suas leis.
O exemplo fez escola e ainda hoje podemos anotar tantas e tantas manobras para distrair o povo enquanto se promulgam verdadeiras masmorras travestidas de Lei.
A prática da manobra da vontade e espírito geral da nação portanto, vem de muito se desenvolvendo, o que acaba por tornar os Estados, tal qual operam em braços da tirania, cômodos instrumentos sustentados pelos oprimidos.
Assim é que a nação se alicerça nos seus vetores determinantes do seu espírito; a natureza, clima, religião, costumes e maneiras, suas leis, o seu passado, e quando um desses vetores cresce, outro encolhe, alterando a matiz comportamental da nação.
Dessa forma a ordem que deve ser estabelecida seria aquela que infundisse no povo a preservação de seu espírito, pois se o legislador acompanhar o espírito da nação, e desde que, não se colidam com os princípios de governo, cessa a tirania, inclusive a de opinião, que é a pior delas. Afinal, não fazemos nada melhor do que o que fazemos livremente, seguindo nosso gênio natural.
Para que se firme o exercício da tirania, foi criado o Estado, a Nação é uma realidade sociológica, e o Estado uma realidade jurídica, tanto será portanto melhor a Nação cujo Estado respeite seu espírito e institua o governo respeitando suas vocações, e conviva com seu defeitos.
A raiz então da tirania, está no enfrentamento que o Estado exerce sobre o espírito geral da Nação, pois para sua manutenção busca o Estado quando divorciado da Nação, do uso da tirania para sua exclusiva permanência no Poder, perpetuando-se mediante leis desconectadas das reais necessidades da Nação e do seu espírito, são leis criadas pelo Estado quase sempre para seu proveito, e na sua aplicação com costumeiro emprego de violência.
Para sustentar-se, o Estado recorre à violência. Prende e processa seus desafetos, enquanto protege das suas leis os apaniguados. Getúlio Vargas dizia: ”para os amigos tudo, para os inimigos a Lei”. Assim, a Lei serve apenas como mais um instrumento de tortura social. Jamais como esteio do ordenamento da Nação. Dessa forma o Estado, na luta incessante pelos seus interesses, invariavelmente recorre também à manipulação da opinião, amortecendo o espírito geral da nação.
Necessita, portanto, para sua preservação, dos valores pagos pelo povo. Recorrendo, invariavelmente, ao incremento da atividade como vetor de produção de riqueza. Consequentemente, obtendo maior arrecadação. A produção, por sua vez, para ser escoada, requer seja estimulado o consumo. Este, como se sabe, depende da manipulação das vontades, operada pelos meios de comunicação.
Todos, sem exceção, fundem-se na direção dos interesses do Estado, envolvidos pela crença de um ordenamento virtual que independe do empreendimento de mudanças, ou que não reagem à dominação; e essa manobra acaba por fazer com que esqueçamos da Nação.
Desse conflito instalado entre o Estado e a Nação é que surge a Ilusão da Ordem, ferramenta do Estado para exercitar a tirania, e agir como meio de poder exercer em cada um de nós um amortecedor de emoções, e manipulação de condutas, dos sonhos e principalmente dos medos.
Assim começa então a pesquisa das evidências da Ilusão da Ordem, compartimentando cada manobra para criar essa realidade virtual, o desenrolar da busca irá amontoando as evidências da violência que fica o homem comum, indefeso, diante da ordem estabelecida, ordem, não ilusão da ordem.
Logo cedo começa o confronto com a ilusão da ordem, desde a simples leitura do jornal pelas primeiras horas da manhã, até o desligar das luzes do dia, um verdadeiro bombardeio de falsas informações e manipulações diversas vão ser desmascaradas, e isso se repete todo dia, todo dia...
Começa o dia, logo cedo apanho o jornal, sabendo de antemão que traz as notícias de ontem, como se fossem hoje, já foram trabalhadas, filtradas, enfim já decidiram o que querem que eu saiba, não vou comentar nenhuma notícia, até porque seria, um exercício inútil, as notícias são iguais. A forma de enganar é a mesma.
Fiquei uma semana sem ler jornal nem assistir aqueles monótonos noticiários na televisão, então comecei a ler o jornal da semana passada, e assim fui lendo sempre defasado de uma semana, a mesma coisa, e assistindo ao noticiário gravado em vídeo, ler jornal, ver o noticiário, é apenas um hábito, uma conexão a mais com o poder estabelecido, mas mesmo assim quero ser acompanhado nessa leitura.
Seis horas da manhã, aguardo o barulho característico do jornal batendo na porta da garagem, tem sido assim durante anos, meu despertador, enquanto espero fico pensando nas coisas do dia que começa, imagino e me transporto ao que parece um alargada de formula 1, esperando apenas um sinal para sair numa a corrida alucinada...
Pronto chegou, enfim o barulho denuncia o descuido do entregador, começou a corrida, desço calmamente a escada, e como sempre apanho o jornal, entregue fora do local combinado, entro e começo sua leitura, as manchetes, que pérolas, sempre iguais, miseravelmente iguais, fatos passados em terras distantes, sem nenhum a importância para nós, ocupam por conta do convênio com a agência de notícias espaço destacado, coisas banais, com gente desconhecida, ou coisas bizarras dos países exportadores de notícias, nos obrigam a achar que tais futilidades por certo combinam com nosso cérebro...
Hoje está demais, querem que me torne economista por esse curso a distância, já que para alimentar as fornalhas do estado, cada vez mais, recursos precisam ser carreados, dessa forma uma gigantesca estrutura de informação, manipulação está montada, produzindo e induzindo toda a Nação a se alinhar em objetivos do Estado, esquecendo das suas necessidades.
Falar de economia, para quem não é especialista é complexo, mas como célula ativa desse processo, me atrevo a aplicar o meu senso crítico, assim entendo que é muito arriscado fazer previsões, tantos são as variáveis, que invariavelmente, acabam frustradas, mas se entendermos como as variáveis se formam, teremos uma pista para desconfiar das evidências, quando aparecerem.
Poderia começar a traçar um perfil da dominação econômica da Nação, a partir de muito antes do descobrimento, porém podemos a partir da década de 1990, tentar desmontar a malha que aprisiona a Nação.
Primeiro devemos perceber o esforço de a Nação ser consumido, em seu desfavor.
O Rendimento
Rendimento, apesar de ser corrente seu entendimento, se traduz pela relação entre o trabalho recebido por um determinado sistema e o trabalho entregue, como um motor, por exemplo, onde se entrega certa quantidade de energia elétrica, e se recebe certa quantidade de energia mecânica, a energia recebida pelo sistema é sempre maior que a entregue, pois o sistema (motor) impões perdas, ou seja certa quantidade gasta para seu funcionamento.
Portanto o sistema será sempre melhor quanto menor forem suas perdas, traduzidas pelo que foi despendido para seu funcionamento, e assim melhor será seu rendimento.
O Estado é o grande motor da Nação, que para sua existência obrigatoriamente consumirá parte do que lhe é entregue no seu funcionamento, quanto o Estado é bem administrado, temos um bom rendimento, o que causa preocupação são os gastos e custos agregados para outros objetivos, diversos do funcionamento pretendido.
É evidente que esses custos se traduzem pela perda de rendimento, o que considero significante são os impingidos pela ilusão da ordem.
A ilusão da Ordem se opera de forma a anestesiar as reformas e a manter um Estado voltado para sua exclusiva sobrevivência, ao custo de se desprezar o rendimento.
Uma das formas mais utilizadas para se criar a ilusão da ordem, é a que a reveste de aparência legal, para tanto se fabricam leis e mais leis, tornando o ordenamento legal como instrumento de dominação e manutenção dos baixos rendimentos.
Por que as leis são redigidas de forma tão complicada, que uma leitura não é suficiente para entendê-las? Não seria mais interessante, para a nação, que todos as entendessem? As pessoas não exerceriam mais a cidadania?
Com efeito, em que pese toda ciência ter sua linguagem autônoma, e, como tal o Direito, as leis podem e devem ser redigidas em linguagem simples, embora concisa e incisiva, a fim de ser compreendida e observada pela maioria do público ao qual é dirigida.
Quando uma lei é bem feita?
Segundo Montesquieu é boa a lei onde ela é cumprida. Contudo, tanto melhor que seja ela justa, mas isso só é possível através do advento de um legítimo legislador que somente emerge nessa função pela direta intervenção divina, ex vi Moisés e Sólon.
No Brasil existem quantas leis? Por que tantas?
Das medidas provisórias promulgadas aos borbotões em avalanche que torna impossível sua compreensão ou utilidade prática, até porque são modificadas em velocidade maior que sua vigência, dificultando e obstruindo os profissionais de Direito do exercício da Justiça.
Atualmente no Brasil existem cerca de mais de um milhão de leis federais, sem contar as leis estaduais e municipais, mais os Decretos e Decretos-Leis que se somam ainda a textos de hierarquia inferior, porém com força legal, como portarias, resoluções, ordens de serviço, pareceres e instruções normativas, boletins, sentenças normativas, súmulas e outras diversas publicações emanadas dos órgãos públicos, numa aglomeração capaz de a todos contradizer e atordoar.
Medidas provisórias, são editadas em tal quantidade que muito dificilmente, um profissional do Direito saberá sequer seu número, que dizer seu conteúdo, são verdadeiros monumentos ao atraso, a concentração de poder, outorga poderes ditatoriais à democracia? Serve apenas para a manutenção do Estado.
As casas legislativas de cada Município, de cada Estado, e ambas da União, elaboraram e votam freneticamente os projetos mais ridículos, concebidos como se uma ordem legal bastasse para mudar os fatos. Como tantas leis, apenas criadas sob encomendas e voltadas a minorias, tal o divórcio entre representantes e eleitores, a Lei torna-se mero subterfúgio, mediante o qual se transfere a cada habitante uma responsabilidade assumida em seu nome. Diga-se, responsabilidade assumida por procuração, viciada pelo anacrônico, mas conveniente sistema ao eleitoral.
O descontrole da base da multiplicação “desordenada de ordens” equivale a um câncer, que é a multiplicação desordenada das células em dado organismo, e somente assim, como grave doença dos legislativos, pode a quantidade de leis ser explicada, confrontada com o desprezo pelos verdadeiros reclamos da Nação.
A Ilusão da Ordem, o confronto entre o Estado e a Nação.
Agora que estabelecemos que a ilusão da ordem esteja consolidada por essa avalanche de leis desconectadas da vontade nacional, vamos falar um pouco sobre a manipulação da ilusão da ordem, nos diversos cenários nacionais, e imaginar o custo que representa tal manipulação espelhada pelas perdas de rendimento verificadas em diversos setores do nosso sistema.
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(Continua)
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